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Hino à bandeira; Carrinho de pipoca

Carmela Gross

(São Paulo, Brasil, 1946)

Hino à bandeira

 

...Pensei que o material de meu trabalho de fato devesse ser uma “matéria-prima”. Pensei na água. Mas era preciso conformála de algum modo… Não com um recipiente, mas com um material poroso, um tecido, por exemplo, uma pele… Pensei no trabalho cotidiano e primitivo, historicamente feito por mulheres – lavar, quarar e estender roupas. Pensei nos grandes planos de roupas coloridas estendidas ao sol…

Produzi alguns desenhos e um conjunto de gravuras, cujas cópias foram feitas a partir de uma mesma matriz retangular. Porém, cada uma foi entintada com uma tonalidade distinta de rosa. Todas iguais na forma, mas diferentes no tom.

Meu plano de trabalho para o museu compreendia, agora, muitas rosas e uma forma modular, feita de tecido.

Escolhi, então, lençóis comuns, desses de fabricação industrial e para uso em camas baratas, com muitos tons de rosa. Molhados, eles foram dispostos no chão, em várias camadas, formando um retângulo de 12 x 18 m – um plano cromático estendido no vão monumental do museu.

Carrinho de pipoca

 

O carrinho que passeia pela cidade empurrado pelo vendedor ambulante de pipoca foi o suporte escolhido por mim para receber uma pintura especial em toda a sua superfície exterior – o corpo metálico, as pequenas portas, a capota, a caixa de vidro, a manopla e as rodas foram recobertas com alguns quilos de batom.

 

A massa pastosa recobre todo ele com muitas rosas, vermelhos, vermelhões, alaranjados e carmins, criando grandes superfícies vermelhejantes. A dinâmica dos gestos da pintura deixa suas marcas em misturas de muitos tons, transparências e opacidades ao acaso.

 

Não mais pipocas à venda, nem vértices, arestas ou superfícies metálicas. Às avessas, os vidros-mostruário e seu corpomóvel expõem a encarnação sensual do batom.

[Em tempo, a pipoca é considerada a comida sagrada do Candomblé e é a oferenda preferida do orixá Obaluaiê/ Omolu. Ele guarda os segredos da morte e do renascimento].

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