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Breves notas para uma autoescrita de artista

Janaina Barros

(Recife, Brasil, 1976)

Prólogo: sobre os ditos de minha avó (quando um pingo é…): apontamentos para escrita de uma cena

 

Lembro-me quando eu era criança a minha avó Nair, mineira nascida nos arredores da cidade de Muriaé, dizia para minha mãe, Janilda, que eu não deveria ler tanto... Pois, toda pessoa que lia demais poderia ficar ‘não batendo bem da cabeça’... Esta frase ecoava... Ficava imaginando essa cena na mesma medida que via o meu pai, Osvaldo, lendo avidamente, quando podia, um livro... Não poderia acreditar que fosse algo ruim... Nesse sentido, eu me lembro da escritora Carolina Maria de Jesus citando o termo pernóstico para se referir quando os outros notavam o seu interesse pelas letras em sua narrativa autobiográfica Quarto de Despejo, publicada em 1960... Negra pernóstica... Negro pernóstico... Ou sobre as atualizações de armadilhas coloniais a partir de escolhas de determinados termos, como artista acadêmico ou negro acadêmico. Termo pejorativo para pessoas negras que desenvolvem pesquisas na universidade. Nesse sentido, este lugar que ocupo como educadora, pesquisadora, artista, mulher, negra, mãe é construir uma produção de uma história pertencente a mim. É necessário repensar os modelos sobre escritas de história. Em que momento a relação entre o Eu e o Outro se torna estéril? Retomo uma fala da saudosa Makota Valdina sobre a necessidade de estarmos na academia construindo outras perspectivas.

Deixarmos de ser objetos de pesquisa para tornarmos responsáveis pelo nosso próprio agenciamento:

O Saber que é saber está sobre a terra para construir outros saberes. (...) Saber não pertence a ninguém, pertence ao mundo. Se você é privilegiado de ter acesso a esse saber, passe adiante. Você é instrumento para aquilo e fazer com que os outros vão além de você.

 

Minha perspectiva é repensar sobre os lugares de saber, pois a presença de corpos negros na academia apresenta um campo constante de fricção.

Cenas 1, 2, 3…

Quem tem a autoridade para falar sobre si?

 

Ou, é necessário que tenhamos intérpretes?

 

Dessa forma, as histórias referentes às pessoas negras e indígenas não seriam contadas da mesma forma pautadas num racismo epistêmico?

De que modo produzimos apagamentos de histórias de pessoas negras especificamente nas artes visuais?

 

O que está à margem?

Quando somos postos à margem?

Por quem somos postos à margem?

Por que vivemos um presente perpétuo sobre a ideia de que as produções de artistas e pensadores são vistas como um movimento recente quando na verdade estas produções são construídas num percurso de séculos?

Quem pode legitimar as nossas produções e de que modo isto acontece?

O que torna um trabalho relevante?

Qual é a importância de se entender a trajetória de cada artista para que seja possível compreender uma determinada poética?

Quais critérios são utilizados para isso?

 

Quem não é citado não produz arte relevante? Por quê?

O que é trabalho para artistas negros?

De que modo estas relações são tecidas?

É possível sobreviver apenas produzindo Arte?

 

Como pensar a pertinência dos processos de aprendizagens nos processos artísticos considerando a escolarização e práticas comunitárias (educação formal, não formal e informal)?

De que modo é possível pensar epistemologias de urgências para uma escrita menos excludente que não seja racista, misógina, homofóbica, transfóbica, xenofóbica e não fundamentada dentro de uma lógica capitalista neoliberal?

Epílogo: para dizer que não é um fim, mas para falar de outras escritas

 

A artista interdisciplinar Grada Kilomba no texto Descolonizando o conhecimento parte da metáfora da máscara onde reflete sobre os lugares contemporâneos da fala de pessoas que historicamente encontram-se numa condição subalternizada. A partir disso, Kilomba levanta as seguintes questões: Quem pode falar? Quem não pode? E, acima de tudo, sobre o que podemos falar? Por que a boca do sujeito Negro tem que ser calada? Por que ela, ele ou eles/elas tem de ser silenciados/as? O que o sujeito Negro poderia dizer se a sua boca não estivesse tampada? E o que é que o sujeito branco teria que ouvir? No entanto, quando cito a história de minha avó penso de que modo formas de colonialidade tentam nos distanciar de nossas formas de conhecimento e espiritualidade. Pois esta narrativa não resume os conhecimentos que ela tinha sobre os usos de ervas medicinais, a sua capacidade de inventividade e tantas outras coisas que poderia dizer sobre ela.

São muitos hiatos temporais. São fragmentos dispersos de narrativas que se urdem neste tempo agora. O meu tataravô materno mineiro benzedeiro... Assim como o meu bisavô materno mineiro benzedeiro... A minha avó paterna alagoana benzedeira... Os usos de ervas para a cura e proteção familiar. Menciono aqui como as práticas de curas aparecem na minha família. Que tipo de cura aparece em certos discursos na arte contemporânea de autoria negra? Quais diálogos são produzidos a partir deste debate? Ao falarmos sobre os impactos dos traumas coloniais na contemporaneidade, é impossível não pensar que a cura não está no alívio instantâneo de uma dor de modo alopático. É necessário confrontá-la constantemente, pois uma doença envolve períodos de aparente melhora, ou, em outros momentos, há um algum tipo de gatilho de que decorre uma crise. Somente dessa forma uma cura pode acontecer de fato. Então, pergunto novamente:

De que modo a nossa autoconsciência e a nossa autocrítica nos acompanham neste processo?

No ato de benzer a palavra possui uma poder vital de reorganização e equilíbrio. Palavra bem dita. E quando a palavra é mal dita? Que tipo de escrita é importante para este momento que nos solicita epistemologias de urgências para narrativas hegemônicas? Trata-se de uma história de poder? Como essas relações de poder encontram-se presentes no cotidiano (nas falas, nos gestos, na percepção e interação com o Outro)? Quem é o Outro? Logo, lembro-me de uma oração dita pela minha tia avó Geraldina quando minha avó Nair faleceu há alguns anos atrás:

Que Deus perdoe a unha que você deixou sobre a terra!

Que Deus perdoe os cabelos que você deixou sobre a terra...

Esta oração é entremeada por uma camada de leituras que aborda sobre a responsabilidade sobre aquilo que cada pessoa diz, pensa, faz neste mundo. Não é possível reescrever uma história carregada por uma série de violências sistêmicas sem friccionar os processos micro e macropolíticos de sua estrutura. O meu trabalho não diz respeito apenas sobre mim, mas me conecta com outros acontecimentos.

Nesse sentido, outras questões são fundamentais para esta reflexão: O que é método? O que é epistemologia? O que é arte? O que é trabalho? O que é vida comunitária?

Quando penso sobre o meu trabalho, lanço-me nos modos de aprendizagens e saberes presentes na minha família.

 

Aciono a importância da memória como reconstituição de conhecimento e narrativas coletivas como proposição de estratégias de resistências. Atravesso os impactos das naturalizações de violências permeadas pela colonialidade num jogo tenso entre afetos e desafetos, desvelando o impacto do epistemicídio na contemporaneidade e as tecnologias de implementações destas violências sobre corpos de famílias negras.

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