Ficções do Invisível

  • Breath
    \\\"Tendo em vista o nosso interesse em explorar esse lugar de enunciação, escolhemos como metáfora desta exposição o momento em que Samuel Beckett, prodígio da língua inglesa, decide deixar de lado seu virtuosismo para escrever em francês, língua praticamente desconhecida para ele, e começa a escrever toda a sua literatura nesse idioma estrangeiro. Esse deixar de lado as tradições e convenções que se manifesta em toda a obra de Beckett, encontra sua âncora, nesta exposição, no espetáculo Breath, a obra mais curta do escritor, com 40 segundos de duração, que envolve apenas o pôr em cena, luz e som, sem atores. O que determina, então, a constituição de uma cena? Daniela Thomas¸ reconhecida cenógrafa e cineasta brasileira, que foi convidada a encenar Breath, se refere à importância da \\\"cortina\\\" nessa obra como \\\"uma convenção antiquíssima, [que] determina o início do \\\"espetáculo\\\". É a partir da CURTAIN que o espetáculo de fato começa.\\\" - Victoria Noorthoorn
  • Nemebiax
    Fabio Kacero demarca ficções sobre si mesmo através de suas obras. Em 2006 criou Fabio Kacero, autor de Jorge Luis Borges, autor de Pierre Menard, autor do Quixote. Para a Bienal, propõe a ficção de um livro sobre a sua vida do qual resta apenas o Índice, que assim toma a forma de uma autobiografia sem intimidade, uma vez que é impossível reconstruir sua narrativa a partir dos dados ali apresentados. Kacero explora uma distância que permite a articulação de possíveis ficções invisíveis. Como poderiam comunicar-se uma menina e referentes canônicos do conhecimento, como Kant ou Hegel? As crianças leem Kant e interpretam Hegel, mas o seu mundo e o dos filósofos não chegam a tocar-se; ambos os mundos mantêm-se invisíveis um ao outro. A leitura é, portanto, apenas uma aparência, pois carece de significado. Tal questionamento é também próprio de seu projeto de longa data, Nemebiax, iniciado em 2001 - presente, em áudio, na exposição Desenho das Ideias - o qual envolve a invenção de milhares de palavras que ainda não adquiriram nenhum significado.
  • O Samba do Crioulo Doido
    A premissa de que a cena está configurada por corpos e linguagens (ou artifícios) é levada ao extremo pelo coreógrafo baiano Luiz de Abreu. É o caso de O Samba do Crioulo Doido (2004), obra na qual Abreu deixa seu corpo integralmente descoberto, apenas enfeitando-se com longas botas brancas de salto alto, e dança o preconceito social sobre o corpo negro e homossexual no Brasil. Sua dança apropria-se dos estereótipos para, alternadamente, encená-los da forma mais humilhante e denunciá-los da maneira mais virulenta. Em sua nova coreografia Espetáculo - produzida especialmente para a 7ª Bienal do Mercosul e apresentada no Theatro São Pedro - Luiz de Abreu postula um arrepiante paralelo entre a vivência histórica do escravo negro no Brasil e a vivência atual da população negra no Brasil do século XXI. A partir de uma variedade de imagens e documentos, Abreu desenvolve uma obra coreográfica que dá conta da pertinência de sua denúncia.
  • Maquette for Culturefield
    Ryan Gander recorre ao humor quando desenvolve narrativas visuais que incorporam ficção, informações cotidianas, pistas e, inclusive, mentiras. Sua nova escultura Maquette for Culturefield (2009) e o filme As It Presents Itself, Somewhere Vague (2008), apresentados nesta Bienal, trazem propostas ficcionais cujos sujeitos são os elementos próprios do sistema da arte. A escultura toma a forma de um organismo que conjuga cerca de vinte estruturas da história da arte, do desenho e da arquitetura - uma parte da torre Eiffel, as cadeiras Eames, as bicicletas dobráveis Landrover, entre outras - e, como um monstro abstrato, invade o espaço pulcro da arte (representado aqui pela estante, o pedestal e a plataforma branca). De fato, Culturefield é o lugar imaginado pelo artista como um paraíso intelectual em que convivem as melhores ideias, referências e estéticas; e sua maquete atuaria como um mapa mental do imaginário do artista no momento mesmo do processo de construção da obra.

    Ryan Gander recorre ao humor quando desenvolve narrativas visuais que incorporam ficção, informações cotidianas, pistas e, inclusive, mentiras. Sua nova escultura Maquette for Culturefield (2009) e o filme As It Presents Itself, Somewhere Vague (2008), apresentados nesta Bienal, trazem propostas ficcionais cujos sujeitos são os elementos próprios do sistema da arte. A escultura toma a forma de um organismo que conjuga cerca de vinte estruturas da história da arte, do desenho e da arquitetura - uma parte da torre Eiffel, as cadeiras Eames, as bicicletas dobráveis Landrover, entre outras - e, como um monstro abstrato, invade o espaço pulcro da arte (representado aqui pela estante, o pedestal e a plataforma branca). De fato, Culturefield é o lugar imaginado pelo artista como um paraíso intelectual em que convivem as melhores ideias, referências e estéticas; e sua maquete atuaria como um mapa mental do imaginário do artista no momento mesmo do processo de construção da obra.

    construção / ficção / humor / linguagem / mentira / referência / subversão de estereótipos e convenções
  • O Vento
    Para a 7ª Bienal do Mercosul, Sergio De Loof foi convidado a conceber e por em cena um desfile para celebrar a inauguração da Bienal. O desfile é parte da mostra Ficções do Invísivel, e se realizou no Armazém A4, no Cais do Porto, Porto Alegre, na sexta-feira, 16 de outubro de 2009.
  • Touch
    Em seu vídeo Touch (2002), Janine Antoni propõe uma reflexão sobre a ideia do limite e sobre o equilíbrio entre situações paradoxais, quando caminha ao mesmo tempo sobre a corda bamba e sobre a linha do horizonte (de uma paisagem de sua Bahamas natal). Sobre a possibilidade de transitar nesse espaço impossível, entre real e ficcional, estabelece: \"Queria caminhar sobre a linha de minha visão, ou sobre a beira de minha imaginação. [...] Por fora, a natureza desenvolve-se, inconsciente de minha luta.\"
  • El Viento
    Para la 7ª Bienal do Mercosul, Sergio De Loof fue invitado a concebir y poner en escena un desfile para celebrar la inauguración de la Bienal. El desfile formo parte de la exposición Ficcoes do Invisível, y se realizo en el Almacén A4, Cais do Porto, Porto Alegre, el viernes 16 de octubre de 2009.
  • O Vento
    \"O desfile O Vento de Sergio De Loof movimenta-se em um registro paradoxal. Sob um aparente barroquismo e excesso de formas, assinala a precariedade da existência, a carência econômica e a fragilidade da situação do artista. Recentemente, referido como \"figura mítica do under portenho, a alma de bares, restaurantes e discotecas que foram convertidas em marcas de época, desenhista de moda fora das modas e, sobretudo, um artista admirado e discutido pela comunidade artística, capaz de produzir obras quase sem dinheiro, vendê-las por pouco valor e devolver à arte uma mística arrebatadora,\" De Loof tem conseguido, desde o princípio dos anos 1980, manter-se alternativo a todas as cenas oficiais. Seus desfiles-delírio postulam, a todo momento, uma crítica corrosiva, uma sátira e um cálido refinamento.\" - Victoria Noorthoorn
  • A boca de jarro
    Na sua instalação A boca de jarro (2008), na qual sua protagonista Silvia Mónica, que se encontra em situação de prostituição, Ana Gallardo denuncia essa condição assim como a prostituição infantil em Buenos Aires. Por outra parte, em seu áudio Currículum laboral (2005-2009), Gallardo relata, em tom monocórdio e solene, todos os trabalhos alheios à arte que precisou realizar para financiar sua vida e sua prática artística. O excesso de trabalhos permite escutar, nas entrelinhas, um discurso mudo, mas não por isso menos eloquente: uma forte crítica sobre a condição da mulher na arte argentina, sobre a falta de apoio institucional e político para a arte contemporânea.
  • Un momento, por favor

    Alinhada com a ideia de exposição da intimidade, Anna Maria Maiolino, em seu filme Um momento, por favor, exibe a visualidade microscópica das marcas do passar do tempo em seu belo rosto envelhecido, enquanto cantarola uma melodia. Longe de uma postura feminista estereotipada, Maiolino expõe-se vulnerável. Não sem certa dose de humor, Maiolino permite-se compartilhar um momento íntimo - o olhar próximo diante do espelho - com o espectador.

  • Véronique Doisneau
    A austeridade é explorada em Véronique Doisneau (2004), registro fílmico da coreografia de Jérôme Bel na qual o artista desmitifica a instituição da dança. Bel coloca em cena, sozinha, a Doisneau, bailarina do corpo de baile do Ballet de L´Opéra de Paris, que durante 35 minutos relata ao público a sua experiência dentro da poderosa instituição francesa, expondo seus sucessos, seus fracassos e os detalhes mais áridos e objetivos de seu trabalho, incluindo seu salário. Bel propõe um grau zero da dança, exibindo o processo criativo, despojado, cru, sem ornamentos nem retórica. Põe em cena o que há por trás da cena; exibe e socializa um processo que usualmente se desenvolve apenas no âmbito do ensaio ou do atelier. Na 7ª Bienal, apresentamos nas salas o filme documentário da performance Véronique Doisneau (dirigido por Bel e Pierre Dupouey) e, no Theatro São Pedro, Isabel Torres, obra gêmea criada para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 2005.
  • Sobre a obra na 7a Bienal
    Gabriel Sierra subverte toda ordem modular. Questiona as fronteiras ent o interior e o exterior, os limites entre os espaços, e propõe dar-lhes volta construindo alternativas às funções que os espaços supõem. Através de projetos que envolvem elementos da linguagem arquitetônica, Sierra questiona as estruturas invisíveis que regem nossa vida cotidiana: o ordenamento do tempo, em meses, semanas e dias, e o ordenamento do espaço em construções com funções determinadas. O que acontece quando se rompe a ordem do tempo e do espaço? O que acontece quando deixamos descobertas aquelas determinações que regem nossa experiência cotidiana? Como se transformam os comportamentos a partir do deslocamento dos limites do mundo funcional moderno? Como poderia ser um espaço não predeterminado, mas resultante de um vocabulário que se constrói no fazer?
  • nemebiax
    \\\"São essas invenções do Nemebiax, então, um insólito salão dos rejeitados?... um salão dos rejeitados do ser? Ars combinatória de não ser de diversa espécie? Quimérico inventário das coisas que não chegaram a ser, que não chegarão a ser, que poderiam ter sido, que não podem ser, que não quiseram ser... Acaso as coisas inexistentes não existem de diversos modos? A que gênero pertence uma tarefa como essa, que pretende discernir, entre as coisas que não são, os diversos modos pelos quais não chegaram a(o) existir?\\\" - Fabio Kacero,\\\"Sobre Nemebiax,\\\" Buenos Aires
  • El Viento
    El Viento

    2009

    Desfile

    Obra da 7ª Bienal do Mercosul

    Fotografia: Eduardo Seidl

    Sergio De Loof
  • El Viento
    El Viento

    2009

    Desfile

    Fotografia: Eduardo Seidl

    Sergio De Loof
  • El Viento
    El Viento

    2009

    Desfile

    Fotografia: Eduardo Seidl

    Sergio De Loof
  • Veronique Doisneau
    Veronique Doisneau

    Obra de Jérôme Bel

    Visita de professores à mostra Ficções do Invisível

    Fotografia: Flávia de Quadros

    Jérôme Bel / teatro
  • Isabel Torres
    Isabel Torres

    2009

    Isabel Torres, de Jerôme Bel, no Theatro São Pedro, Porto Alegre, no dia 17 de outubro de 2009.

    Performance na 7ª Bienal do Mercosul.

    Fotografia: Cristiano Sant'Anna

    desaprender o aprendido / desmistificação / despojamento / fragilidade / intimidade / Jérôme Bel / linguagem / subversão de estereótipos e convenções / teatro
  • Isabel Torres
    Isabel Torres

    2009

    Isabel Torres, de Jerôme Bel, no Theatro São Pedro, Porto Alegre, no dia 17 de outubro de 2009.

    Performance na 7ª Bienal do Mercosul.

    Fotógrafo: Cristiano Sant'Anna

    desaprender o aprendido / desmistificação / despojamento / fragilidade / intimidade / Jérôme Bel / linguagem / subversão de estereótipos e convenções / teatro
  • Curtain
    \\\"É a partir da CURTAIN que o espetáculo de fato começa. Não o objeto físico CURTAIN, mas o separador PALCO/PLATEIA, que transforma BREATH, não numa instalação, mas num espetáculo de teatro e, portanto, tão mais notável por isso. Se o público entrar no espaço e logo de cara ver o entulho no chão, o efeito que Beckett pretendia - o absurdo da duração do evento, para um espetáculo teatral - se perde completamente. E BREATH tomaria outra forma, a de escultura, instalação, perdendo sua característica original de peça de teatro, seu impacto. O entulho não tem nenhum poder em BREATH fora da encenação como um todo. O entulho é personagem, parte da obra, não a obra em si. Percebi, portanto, que a tal CURTAIN precisa existir. Naturalmente, a ideia de uma cortina física, que se abre a cada início de \\\"espetáculo\\\", não me apetece minimamente, mas pensei na solução de uma divisão física que funcionasse como uma cortina apenas no sentido de limitação espacial e encobrimento do entulho. E que tivesse uma forte conotação de elemento teatral.\\\" - Daniela Thomas, comunicação via e-mail do 11 de agosto de 2009.
  • Espetáculo
    Espetáculo

    2009

    Performance no Theatro Sao Pedro

    Fotógrafo: Cristiano Sant´Anna

    artista como ator social / despojamento / Luiz de Abreu / teatro
  • Variaciones sobre el Santo Job
    Variaciones sobre el Santo Job

    2006

    Videoinstalação

    Coleção do artista, Colômbia

    Obra na 7a Bienal

    austeridade / despojamento / José Alejandro Restrepo / subversão de estereótipos e convenções
  • Variaciones sobre el Santo Job
    Variaciones sobre el Santo Job

    2006

    Videoinstalação

    Coleção do artista, Colômbia

    austeridade / despojamento / José Alejandro Restrepo / subversão de estereótipos e convenções
  • Touch
    Touch

    2002

    9'37"

    Videoinstalação

    Coleção do artista, Estados Unidos

    Janine Antoni
  • Touch
    Touch

    2002

    9'37"

    Videoinstalação

    Coleção do artista, Estados Unidos

    Janine Antoni
  • Un momento, por favor
    Un momento, por favor

    1999-2004

    4'30"

    Filme H8, transcrito em vídeo digital

    Música: Roberto Murolo, em Napule Canta

    Coleção do artista, SP

    Anna Maria Maiolino / autobiografia / fragilidade / intimidade
  • Un momento, por favor
    Un momento, por favor

    1999-2004

    4'30"

    Filme H8, transcrito em vídeo digital

    Música: Roberto Murolo, em Napule Canta

    Coleção do artista, SP

    Anna Maria Maiolino
  • A boca de jarro
    A boca de jarro

    2008

    Videoinstalação

    6'44"

    Coleção da artista, Buenos Aires

    Ana Gallardo / contexto / denúncia / fragilidade / intimidade
  • A boca de jarro
    A boca de jarro

    2008

    Videoinstalação

    6'44"

    Coleção da artista, Buenos Aires

    Ana Gallardo / contexto / denúncia / fragilidade / intimidade
  • O samba do crioulo doido
    O samba do crioulo doido

    2004

    Performance

    Fotografia: Antoine Tempé

    Luiz de Abreu / teatro

Para download do texto curatorial original em espanhol, clique aqui

Ficções do Invisível

A exposição reúne artistas que colocam em cena sua própria relação com o processo artístico e, ao se exporem, expõem cruamente aqueles aspectos da produção artística que habitualmente ficam apagados ou sublimados na obra terminada: o questionamento interno, a estrutura dos processos, a economia de meios, o rompimento da função, a relação entre obra e vida privada, as vicissitudes a que o artista deve se submeter enquanto sujeito social atravessado por determinações de idade, gênero, raça, religião, tradições, linguagens...

Muitas vezes isto compreende um despojamento da linguagem artística e um desvelamento de suas estratégias retóricas. O artista desenvolve uma linguagem não mais pura, se não simplesmente mais direta e mais pobre (citando o escritor irlandês Samuel Becktett, "Me pus a escrever em francês com o desejo de me empobrecer ainda mais. Esse foi o verdadeiro motivo") renunciando ao capital técnico e simbólico que a tradição acumulou em seu aparente benefício. Empenha-se em desaprender o aprendido, em regressar a essa obscuridade que foi seu ponto de partida e meio inicial.

Os artistas incluídos nesta exposição dão conta deste processo partindo de um extremo ascetismo, da confrontação direta e da exposição brutal da condição social do artista. Se a arte é uma representação, estes artistas colocam em cena o que está por trás da cena. Se a arte é uma máquina, arrancam a couraça e nos mostram as suas engrenagens. Se é um corpo, expõem os músculos e os órgãos.

 

Fictions of Invisibility

This exhibition brings together artists who stage their relationship to the artistic process, thereby crudely exposing themselves, as well as all the aspects of artistic production that are usually erased or sublimated in the finished work of art: that is, the process's tools and structures, its economy of means, as well as the artist´s own inner search, the relationship between the work of art and private life, and the vicissitudes to which an artist, as a social agent, is subject. This often entails baring artistic language and exposing its rhetorical strategies. In relinquishing the technical and symbolic capital that tradition has accumulated apparently for their benefit, these artists develop a language not purer but poorer (in the words of Beckett, Je me remis à écrire - en français - avec le desir de m´appauvir encore davantage. C´était le vrai mobile). They strive to unlearn what they have learned, to return to the darkness from which they came and in which they first worked, a darkness that artistic practice tends to forget and deny in the process of creating a finished work of art.

The artists in this exhibition reveal these processes by means of extreme asceticism, direct confrontation, and the frank exhibition of their artistic experiences. The exhibition foregrounds the backstage of artistic experience and the mechanisms of scenic construction through which the artists make their experiences visible.