A sátira foi uma ferramenta importante em vários trabalhos de James Ensor, nos quais cenas da vida política e cultural da Bruxelas de finais do século XIX tomam giros inesperados e ridicularizam os agentes do poder e o comportamento de sua sociedade aburguesada. As obras descrevem uma ordem paralela e fantástica, mas assombrosamente familiar, que delata a dupla cara da realidade. Mesmo com a distância critica de quem exercita o humor, Ensor ridiculariza sua própia condição de artista - como em Le Pisseur (1887), onde escreve a legenda \"Ensor est un fou\" (\"Ensor é um louco\") - e recorre à máscara para dar conta da realidade oculta detrás do véu do real.
\"Uma experiência sobre a psychologia das multidões da qual resultou sério distúrbio.Domingo, às 15 horas, quando desfilava pelas ruas do centro da cidade a procissão de ´Corpus Christi´, um rapaz muito bem posto que se achava na esquina da rua Direita e praça do Patriarcha, não se descobriu conservando ostensivamente seu chapéu na cabeca. Os crentes, que acompanhavam o cortejo, revoltaram-se con essa atitude e exigiram em altos brados que ele se descobrisse. Ele, no entanto, sorrindo para a turba, não tirou o chapéu, embora o clamor da multidão já se tivesse transformado em franca ameaça. Foi então que inúmeros populares tentaram linchá-lo. Investindo contra ele. O rapaz pôs-se em fuga, ocultando-se na Leiteria Campo Bello, situada a rua de São Bento, até onde foi perseguido pelos mais exaltados. (...) Nas suas declarações, disse que, há tempos, se vem dedicando a estudos sobre a psychologia das multidões e tem mesmo alguns trabalhos inéditos sobre a matéria. Para melhor orientação do seus estudos, resolvera fazer uma experiência sobre ´a capacidade agressiva de uma massa religiosa à resistencia da força das leis civis, ou determinar se a força da crença é maior do que a força da lei e do respeito à vida humana´. (...) Terminou suas declarações dizendo que não visava ofender a religião do povo, pois esperava de fato que se verificasse tal reação.\" - O Estado de São Paulo, 9/junho/1931